Acessibilidade: A Ampliação do Papel Social do Museu Casa de Portinari
Angelica Fabbri
Museóloga
Diretora Executiva da ACAM PORTINARI – Organização Social de Cultura
“Mais do que o gesto, interessa como ele foi recebido. Mais do que a palavra, nos influencia como ela foi ouvida. Mais do que o fato, vale onde, como e quando ele nos tocou.”
Lya Luft
CAMINHANDO EM DIREÇÃO A NOVOS PÚBLICOS
“Refletir sobre o Museu Casa de Portinari e a possibilidade de acesso através dos sentidos às suas obras, para mim, enquanto deficiente visual, torna as palavras vazias e destituídas de sentimento, tamanha é a minha satisfação. Ah, que orgulho de Portinari! Lembrar de quando ele afirmou que “se não fosse pintor, gostaria de sê-lo”, faz-me identificar com ele, pois se não fosse cega e não fosse educadora de deficientes visuais gostaria também de sê-lo. Poder contar com as adaptações de acessibilidade realizadas no Museu Casa de Portinari é algo maravilhoso, pois nós, deficientes visuais, quando estamos visitando um espaço artístico e dependemos da descrição de outros, temos de imaginar as obras no vazio. Já tive oportunidade de visitar diversos locais, até mesmo fora do Brasil, e nunca me deparei com um espaço onde pudesse ter a real referência dos elementos presentes, táteis, olfativos e auditivos. No Museu Casa de Portinari esse privilégio realmente acontece, e aqui podemos afirmar que visitamos e conhecemos concretamente o Museu!” – MARLENE TAVEIRAS CINTRA – DEFICIENTE VISUAL
A essência do que chamamos de acessibilidade em museus está estritamente ligada à inclusão social, ao caminhar em direção ao outro, ou seja, trata-se de abrir as nossas instituições à criação de serviços e programas voltados ao atendimento das necessidades especiais de pessoas com deficiências sensoriais, físicas ou mentais, inclusive de idosos e outras limitações. São sim necessárias algumas transformações nos ambientes físicos, mas a maior e principal mudança está na mentalidade das pessoas e na postura das instituições, sobretudo na criação e implementação de suas políticas públicas, que devem entender os museus como lugares de convivência entre pessoas de todos os tipos e inteligências, no legítimo exercício de seus direitos, necessidades e potencialidades.
Felizmente, muitas pessoas e instituições já estão trabalhando pela inclusão social, provando que é possível, e o Museu Casa de Portinari sente-se honrado em fazer parte desse conjunto; e principalmente, em contribuir para que ele cresça como deve ser para o fortalecimento da cidadania e dos direitos de um estado democrático.
CONSOLIDANDO COMPROMISSOS
Candido Portinari, reconhecidamente um pintor social, foi acima de tudo um cidadão atento e envolvido com as preocupações sociais de seu tempo, de seu país. Sua contribuição contra as injustiças e desigualdades sociais era a sua arte, pois lutava por meio de sua pintura. E ao representar a dor e o sofrimento de cada indivíduo, representou a dor e o sofrimento da humanidade, acentuando o caráter universal de sua obra, o que pressupõe que o trabalho realizado pelo Museu Casa de Portinari, não pode se limitar a preservar a sua memória e divulgar a sua obra e ponto final; seria contraditório com o pensamento e a conduta do artista. Há que se ir além, num explícito comprometimento com uma missão sócio-cultural, notadamente em nosso país onde permanecem as discrepâncias e as desigualdades sociais.
Os museus, pelo seu lado, são, por excelência, instituições a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, portanto, devem estar comprometidos com ações que promovam mudança de comportamento e o entendimento de nossas relações com o mundo em que vivemos e a tomada de consciência que mesmo ignorando as conseqüências dos nossos atos, sempre seremos responsáveis por eles.
Na sociedade contemporânea os museus têm que assumir o seu importante papel na promoção da inclusão sócio-cultural, considerando-se o grande número de pessoas que, por uma série de fatores, ficam à margem no cenário cultural, não vivenciam os museus e suas infinitas possibilidades, e isso toma proporções maiores à medida que se distancia do eixo das capitais e grandes centros, sendo a grande população que vive no interior especialmente atingida; e assim o que dizer das pessoas com necessidades especiais, que na maioria das vezes não são contempladas, embora a legislação vigente garanta seus direitos públicos.
As premissas acima especificadas sempre nortearam o trabalho e as políticas institucionais do Museu Casa de Portinari nas ações educativas com seu público e na busca e aproximação com públicos potenciais e distantes.
Ao longo dos anos muitas ações foram desenvolvidas nesse sentido, inclusive, com projetos especiais para públicos com deficiências mentais, mas a consolidação do trabalho com a acessibilidade configurou-se em 2007 a partir da parceria, viabilizada pela Secretaria de Estado da Cultura, mantenedora do Museu Casa de Portinari, firmada com a Pinacoteca do Estado, através de sua área de Projetos para Públicos Especiais, sob Coordenação da Museóloga Amanda Pinto da Fonseca Tojal, juntamente com Margarete de Oliveira, que garantiu, inclusive o aporte financeiro para a realização dos PERCURSOS DE ACESSIBILIDADE para o Museu Casa de Portinari.
O COMPARTILHAMENTO EM PROL DE UMA CAUSA MAIOR
Diante da perspectiva do avanço do Museu Casa de Portinari em direção à busca pela inclusão social e cultural, ante a possibilidade de oportunizar o museu e o patrimônio cultural que ele abriga para os públicos com necessidades especiais era necessário o estabelecimento de PARCERIAS na busca por objetivos comuns, para a construção de pontes e novos caminhos.
Para a construção de percursos para públicos com necessidades especiais no Museu Casa de Portinari seria fundamental contar com a participação não só das pessoas com deficiências, também com especialistas que juntamente com a equipe de profissionais do próprio museu, a qual foi acrescida com a vinda de uma Especialista em Educação Especial, no sentido de estruturar-se a composição de uma equipe afinada e coesa.
Foram convidados, entre outros, a ADEVIRP – Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região, com sede em Ribeirão Preto; a ASSOCIAÇÃO DE SURDOS DE RIBEIRÃO PRETO, que representadas por seus Presidentes, Associados, Técnicos, Especialistas e Colaboradores ajudaram na realização do projeto, em todas as suas etapas, inclusive, na avaliação dos percursos, com seus respectivos materiais complementares.
NOVOS OLHARES PARA A CASA DE PORTINARI: A BUSCA POR PERCURSOS
Evidentemente, a etapa inicial está diretamente ligada a ampla pesquisa, reflexão e capacitação sobre Acessibilidade, em seus diversos aspectos, inclusive, a legislação vigente e também ações inclusivas em museus no sentido de criar o panorama necessário para focar o trabalho a ser implementado no Museu Casa de Portinari, contando para tanto com o envolvimento de muitos profissionais e instituições que enriqueceram sobremaneira o entendimento que as ações pretendidas iriam além das adaptações da edificação, pois trata-se também de propiciar experiência e espaços acessíveis, com materiais próprios para ampliação do aproveitamento da visita e da fruição dos públicos com necessidades especiais.
Como ponto de partida era preciso que o Museu Casa de Portinari tivesse claramente estabelecidos os eixos temáticos que seriam abordados nos percursos, posto que não seria possível adaptar o museu como um todo.
Nesse sentido, buscou-se contemplar dois aspectos entendidos como essenciais ao Museu Casa de Portinari: o biográfico/casa-museu e o artístico/obra de Candido Portinari.
Definidos esses pontos, passou-se verificar no acervo e no espaço/contexto geral o que poderia oferecer maiores condições para adaptações que pudessem ampliar e enriquecer o repertório de habilidades, sentimentos e conhecimentos dos públicos com necessidades especiais na sua experiência com o Museu Casa de Portinari.
Ficando assim estruturada a seleção:
- Da casa: edificação geral, cômodos e mobiliário
- Candido Portinari: aspectos biográficos, vivências na casa e a terra natal
- Do acervo artístico: afresco, a técnica e os murais da casa
- Capela da “Nonna” – edificação/obras/espaço religioso
A partir dos recortes estabelecidos, durante meses a equipe esteve debruçada na árdua e gratificante missão de encontrar caminhos e construir pontes …
Optou-se pela identificação dos percursos e dos materiais, de forma a facilitar o acesso aos mesmos e buscou-se, sempre que possível, dar autonomia ao visitante, para que fosse encorajado na sua descoberta do Museu Casa de Portinari.
Os recursos oferecidos aos visitantes com necessidades especiais têm caráter contínuo, ficam visíveis nos diversos espaços que compõem os percursos, sendo que a equipe do Museu Casa de Portinari está preparada para receber, a qualquer tempo, esses visitantes de forma individual ou em grupos para assessorá-los na visita.
Os materiais, além de terem sido criados e produzidos em parceria com os públicos especiais, foram inicialmente testados por eles próprios, o que garantiu a avaliação de sua eficácia quanto aos objetivos pretendidos.
CONCLUSÃO
Dentre as muitas realizações do Museu Casa de Portinari a implantação da acessibilidade foi das mais gratificantes, não fossem os resultados obtidos e a satisfação das pessoas com necessidades especiais que extravasam seu contentamento pela experiência com novos diálogos oportunizados; seriam as parcerias, convivências e aprendizado que possibilitaram a toda a equipe, pela superação de desafios inerentes a um projeto dessa natureza, mas acima de tudo pela conquista de verem assegurados os direitos de inclusão social e cultural de pessoas com necessidades especiais, que não só fortalece a cidadania, bem como consolida e legitima os princípios democráticos; estamos falando de compromissos e responsabilidades sociais de nossos museus, do Museu Casa de Portinari.
DEPOIMENTOS
A EXPERIÊNCIA DE PARTICIPAR NA REALIZAÇÃO DESSE PROJETO:
MARLENE TAVEIRAS CINTRA
Psicóloga – Pedagoga – Professora Especializada em Deficiência Visual
Presidente da ADEVIRP – Associação de Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região – SP
“Para a Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região – ADEVIRP foi uma honra ter feito parte da parceria com o Museu casa de Portinari na adaptação das obras e materiais diversos para acessibilidade aos deficientes visuais! Possibilitar que os deficientes visuais tenham acesso ao Museu, possam conhecer concretamente o mobiliário, os quadros, utilizar-se das pistas sonoras, ler em Braille as legendas das obras, todo este privilégio resulta no mais sincero orgulho por parte da ADEVIRP, por ter estado presente neste processo de adaptação. A inclusão social do deficiente visual é um dos principais objetivos da ADEVIRP enquanto instituição, e esta meta sobretudo se efetiva através da inclusão cultural; é necessário compreender que, em relação à apropriação artística, o deficiente visual apenas não enxerga, mas em contrapartida possui uma maneira especial de realizar a leitura das obras de arte. Termos a oportunidade de ser mediadores nesta busca pela inclusão cultural, que também é um direito do deficiente visual, vem de encontro à missão estabelecida pela ADEVIRP durante sua trajetória: oportunizar ao deficiente visual experiências e espaços acessíveis para ampliar seu repertório de habilidades, sentimentos, saberes e conhecimento de mundo!”
Marlene Taveiras Cintra – Presidente da ADEVIRP
CRISTIANE MARIA PATRICI
Pedagoga – Especialista em Educação Especial
“Fazer parte da equipe de profissionais que atuaram na elaboração e desenvolvimento do Projeto de Acessibilidade do Museu casa de Portinari já é motivo de muito orgulho; perceber a satisfação, a gratidão das pessoas que têm a oportunidade de usufruírem desse material para se apropriarem de forma significativa de um momento histórico, expressivo e grandioso das artes plásticas de nosso país é sorte e encantamento!”

Material de acessibilidade – Percurso cozinha – Mobiliário

Material para acessibilidade – Móvel que identifica percurso e disponibiliza materiais

Material de acessibilidade – Percurso acervo – afresco
BIANCA MESSENBERGER PACHER
Intérprete – Libras / Associação de Surdos de Ribeirão Preto
“O projeto de acessibilidade para Surdos do Museu casa de Portinari é o único nesses moldes em nosso país e muito admirado pela comunidade surda. Quer saber? Para mim é o melhor projeto do mundo! Adorei. Muito. O vídeo sinalizado por um Surdo é forte, direto, sensível e seguro. A apostila é original, contém desenhos exclusivos e apresenta os textos de forma que os usuários entendem. Parabéns. Obrigada pelo prazer de participar desse trabalho e pela emoção de ver o fantástico resultado final. Para os Surdos é um presente de Deus!”
ANDRÉ LUIS MATTIOLI ROSA
Sinalizador (Surdo)
Presidente da Associação de Surdos de Ribeirão Preto
“É muito importante o uso do DVD para os Surdos, porque na maioria das vezes os surdos vão até os museus e apenas vêem as imagens e lêem algumas coisas, só que nem todos Surdos têm uma leitura. Por isso, criamos esse projeto do DVD, que é utilizado apenas no Museu casa de Portinari. Queríamos que os surdos tivessem uma noção maior do que se tratava o Museu casa de Portinari, que não se tratava apenas de imagens bonitas!
Eu espero que todos os museus consigam criar um modelo de explicação em DVD para os surdos. Assim, crescerá o número de surdos interessados em aprender mais, pelo fato de ter mais informação e mais explicação disponíveis.”

Detalhe da apostila para Surdos
MUSEU CASA DE PORTINARI
O Museu Casa de Portinari, localizado em Brodowski, foi instalado e inaugurado em 14 de março de 1970, na casa onde residiu o pintor em sua terra natal, que pela sua importância foi elevado à categoria de patrimônio, sendo tombado pelos órgãos da esfera federal e estadual, respectivamente o IPHAN e o CONDEPHAAT. Seu acervo artístico constitui-se, principalmente, por trabalhos realizados pelo artista em pintura mural, ou seja, as pinturas têm por suporte as paredes da casa, nas técnicas de afresco e têmpera; também faz parte do acervo uma coleção de desenhos feitos por Portinari, linguagem expressiva e significativa na produção do artista, presente em todos os momentos de sua carreira.

O Museu abriga ainda objetos de uso pessoal, mobiliário e utensílios domésticos; sendo que alguns cômodos permanecem com suas funções originais e outros foram adaptados para sala de exposições. No conjunto, destacam-se o ateliê do artista, com seus objetos de trabalho e a “Capela da Nonna”, que Portinari pintou para sua avó que estava doente e impossibilitada de ir à Igreja.
Museu Casa de Portinari – Brodowski-SP
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- ABNT NBR 9050:2004- Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), 2004.
- TOJAL, Amanda Pinto da Fonseca. Políticas Públicas Culturais de Inclusão de Públicos Especiais em Museus. Tese (Doutorado – Ciência da Informação, Área de Concentração: Cultura e Informação) – Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, 2007.
- Revista Brasileira de Museus e Museologia / MUSAS. Brasília: IPHAN. n. 1, 2004.
- HORTA, M de Lourdes Et Al. Guia Básico de Educação Patrimonial. Brasília: IPHAN / Museu Imperial, 1999.





